Apocalipse, Ezequiel e o Lecionário
David Chilton
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1
Há pelo menos outro fator que tem influenciado grandemente o esboço
de Apocalipse. O livro está construído com aderência rigorosa a um dos mais
famosos “Tribunais do Pacto” de todos os tempos: a profecia de Ezequiel. A
dependência de Apocalipse da linguagem e imagem de Ezequiel tem sido
reconhecida há muito tempo;2 um erudito encontrou não menos que 130
referências separadas a Ezequiel.3 Mas S. João vai além de meramente fazer
alusões literárias a Ezequiel. Ele o segue, passo a passo – tanto que Philip
Carrington pôde dizer, com uma hipérbole suave: “Apocalipse é uma reescrita
cristã de Ezequiel. Sua estrutura fundamental é a mesma. Sua interpretação
depende de Ezequiel. A primeira metade dos dois livros conduz à destruição
da Jerusalém terrena; na segunda metade eles descrevem uma Jerusalém santa
e nova. Há somente uma diferença significativa. O lamento de Ezequiel sobre
Tiro é transformado num lamento sobre Jerusalém, sendo a razão que S. João
deseja transferir para Jerusalém a nota de condenação irrevogável que se
encontra no lamento sobre Tiro. Aqui reside a diferença real nas mensagens
dos dois livros. Jerusalém, como Tiro, há de desaparecer para sempre”.4
Considere os paralelos mais óbvios:5
1. A Visão do Trono (Ap 4 / Ez 1)
2. O Livro (Ap 5 / Ez 2 – 3)
3. As Quatro Pragas (Ap 6.1-8 / Ez 5)
4. Os Mortos Debaixo do Altar (Ap 6.9-11 / Ez 6)
5. A Ira de Deus (Ap 6.12-17 / Ez 7)
6. O Selo na Fronte dos Santos (Ap 7 / Ez 9)
7. As Brasas do Altar (Ap 8 / Ez 10)
8. Sem Mais Nenhuma Demora (Ap 10.1-7 / Ez 12)
9. O Livro Sendo Comido (Ap 10.8-11 / Ez 2)
10. A Medição do Templo (Ap 11.1-2 / Ez 40 -43)
11. Jerusalém e Sodoma (Ap 11.8 / Ez 16)
12. O Cálice da Ira (Ap 14 / Ez 23)
13. A Vinha da Terra [Nação] (Ap 14.18-20 / Ez 15)
14. A Grande Prostituta (Ap 17 – 18 / Ez 16, 23)
15. O Lamento sobre a Cidade (Ap 18 / Ez 27)
16. O Banquete das Aves (Ap 19 / Ez 39)
17. A Primeira Ressurreição (Ap 20.4-6 / Ez 37)
18. A Batalha com Gogue e Magogue (Ap 20.7-9 / Ez 38 – 39)
19. A Nova Jerusalém (Ap 21 / Ez 40 – 48)
20. O Rio da Vida (Ap 22 / Ez 47)
Como assinala M. D. Goulder, a proximidade da estrutura dos dois
livros – a “identificação” passo-a-passo entre Apocalipse e Ezequiel – implica
algo mais que uma mera relação literária. “O nível de identificação geralmente
não é uma característica de empréstimo literário: por exemplo, a obra de
Crônicas está longe de ter um nível de identificação com Samuel e Reis, com
sua enorme expansão do material do Templo, e sua remoção das tradições do
norte. Antes, o nível de identificação é uma característica de uso lecionário,6
como quando a Igreja estabelece a leitura de Gênesis juntamente com
Romanos, ou Deuteronômio ao lado de Atos… Além disso, é claro que João
esperava que suas profecias fossem lidas durante o culto, pois disse: ‘Bemaventurado
aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia’ (1.3) – a
versão RVS traduz isso corretamente como ‘lê em voz alta’. Na realidade, o
próprio fato dele repetidamente chamar o seu livro de ‘a profecia’ o alinha
com as profecias do Antigo Testamento, que eram familiares por serem lidas
em público durante o culto”.7 Em outras palavras, o livro de Apocalipse foi
concebido desde o início como uma série de leituras no culto durante o Ano
da Igreja, para ser lido em conjunto com a profecia de Ezequiel (bem como
outras leituras do Antigo Testamento). Como escreveu Austin Farrer em seu
primeiro estudo sobre Apocalipse, João “certamente não pensava que o livro
seria lido apenas uma vez para as congregações e então usado para embrulhar
peixe, como uma carta pastoral”.8
A tese de Goulder sobre Apocalipse está apoiada pelas descobertas em
sua recente obra sobre os Evangelhos, The Evangelists' Calendar, que tem
revolucionado os estudos do Novo Testamento ao colocar os Evangelhos em
seu contexto litúrgico adequado.9 Como Goulder demonstra, os evangelhos
foram escritos originalmente, não como “livros”, mas como uma série de
leituras durante o culto, para acompanhar as leituras nas sinagogas (as igrejas
do Novo Testamento). De fato, argumenta ele, “Lucas desenvolveu seu
Evangelho ao pregar à sua congregação, como uma série de cumprimentos do
AT; e esse desenvolvimento em séries litúrgicas explica a estrutura do seu
Evangelho, que tem sido um enigma por muitos anos”. 10
As estruturas tanto de Ezequiel como de Apocalipse conduz tais livros
prontamente ao uso lecionário em série, como observa Goulder: “Na divisão
de Apocalipse e de Ezequiel em profecias ou visões, em unidades para os
domingos sucessivos, o intérprete dispõe de pouco arbítrio; uma característica
feliz, pois estamos buscando linhas divisórias claras e incontroversas. A
maioria dos comentários divide o Apocalipse em aproximadamente cinquenta
unidades, e eles não divergem muito. Na Bíblia, Ezequiel está dividido em
quarenta e oito capítulos, muitos dos quais são evidentemente profecias
isoladas que se sustentam por conta própria. Além disso, o comprimento dos
capítulos de Ezequiel é o mesmo em termos gerais. O livro cobre pouco mais
de 53 páginas de texto na versão RV, e muitos capítulos possuem cerca de
duas colunas (uma página) de comprimento. Algumas das divisões são, talvez,
questionáveis. Por exemplo, o chamado de Ezequiel se estende além do mui
breve capítulo 2 até o final claro em 3.15, e o curto capítulo 9 poderia ser
considerado juntamente com o capítulo 8; embora existam alguns capítulos
enormes (16, 23 e 40), que possuem mais de quatro colunas de comprimento,
e que se subdividem naturalmente. Mas uma característica encorajadora já se
tornará óbvia ao leitor: os dois livros se dividem em aproximadamente
cinquenta unidades, e o ano judaico (-cristão) consiste de cinquenta ou
cinquenta e um sabbaths/domingos. Portanto, temos o que parece material
para um ciclo anual de Ezequiel inspirando um ciclo anual de visões, que
então poderiam ser lidos nas igrejas da Ásia juntamente com Ezequiel, e
explicados em sermões à luz deles”. 11 Goulder continua e fornece uma longa
tabela mostrando leituras consecutivas ao longo de Ezequiel e Apocalipse,.
apresentada juntamente com o ano cristão da Páscoa à Páscoa; as correlações
são impressionantes.12
A ênfase pascoal do Apocalipse também foi abordada em um estudo
realizado por Massey Shepperd, quase vinte anos antes de Goulder escrever.13
Shepperd demonstrou outro aspecto notável da arquitetura de Apocalipse,
mostrando que a profecia de João está delineada de acordo com a estrutura do
culto da igreja primitiva – de fato, que tanto o seu Evangelho como o
Apocalipse “dão testemunho desde o ponto de vista da experiência da liturgia
pascal das igrejas da Ásia”.14
A natureza lecionária de Apocalipse ajuda a explicar a riqueza do
material litúrgico na profecia. Sem dúvida, Apocalipse não é um manual sobre
como “fazer” um culto de adoração; antes, ele é um culto de adoração, uma
liturgia conduzida no céu como um modelo para aqueles que estão na Terra
(e, incidentalmente, instruindo-nos que a sala do trono de Deus é o único
ponto de vista adequado para contemplar o conflito terreno entre a Semente
da Mulher e a semente da Serpente): “Tradicionalmente, e de maneira bastante
consciente, o culto da Igreja tem sido modelado segundo as realidades divinas
e eternas reveladas em Apocalipse. A oração da Igreja e da sua celebração
mística são uma com a oração e a celebração do reino dos céus. Assim, pois,
na Igreja, com os anjos e os santos, e através de Cristo o Verbo e o Cordeiro,
inspirados pelo Espírito Santo, os crentes fieis da assembleia dos salvos
oferecem adoração perpétua a Deus o Pai Todo-Poderoso”. 15
A falha em reconhecer a importância de Apocalipse para a adoração
cristã tem empobrecido grandemente muitas igrejas modernas. Para citar
apenas um exemplo: Quantos sermões foram pregados sobre Apocalipse 3.20
– “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta,
entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” – sem reconhecer a mui
óbvia referência sacramental? Sem dúvida Jesus está falando da Santa Ceia,
convidando-nos a cear com ele; por que não vimos isso antes? A razão tem
muito a ver com uma ideia puritana de culto que procede, não da Bíblia, mas
dos filósofos pagãos.
Dom Gregory Dix, em seu volumoso estudo do culto cristão, foi
certeiro: O puritanismo litúrgico não é “protestante”; nem sequer é cristão.
Em vez disso, é “uma teoria geral sobre o culto, não especificamente protestante, nem mesmo limitada a cristãos de alguma classe. É a teoria de
trabalho em que se baseia o culto muçulmano. Foi composta pelo poeta
romano Pérsio e o filósofo pagão Sêneca no século primeiro, e eles só
estavam elaborando uma tese dos autores filosóficos gregos que datam do
sétimo século antes de Cristo. Resumidamente, a teoria puritana afirma que o
culto é uma atividade puramente metal, que deve ser exercido por meio de uma
‘atenção’ estritamente psicológica a uma experiência subjetiva emocional ou
espiritual… Contra essa teoria puritana de culto ergue-se outra – o conceito
‘cerimonioso’ de culto, cujo princípio fundamental é que o culto como tal não
é um exercício puramente intelectual e afetivo, mas algo no qual o homem
inteiro – tanto o corpo como a alma, e seus poderes estéticos e volitivos,
assim como intelectuais – devem participar de forma plena. Ele considera o
culto como um ‘ato’ tanto como uma ‘experiência’”.16 É essa visão
“cerimoniosa” do culto que é ensinada pela Bíblia, de Gênesis a Apocalipse.
Visto que todas as ações de Apocalipse são vistas desde o ponto de vista de
um culto de adoração, este comentário assumirá que a estrutura litúrgica é
básica para sua interpretação correta.
de Apocalipse. O livro está construído com aderência rigorosa a um dos mais
famosos “Tribunais do Pacto” de todos os tempos: a profecia de Ezequiel. A
dependência de Apocalipse da linguagem e imagem de Ezequiel tem sido
reconhecida há muito tempo;2 um erudito encontrou não menos que 130
referências separadas a Ezequiel.3 Mas S. João vai além de meramente fazer
alusões literárias a Ezequiel. Ele o segue, passo a passo – tanto que Philip
Carrington pôde dizer, com uma hipérbole suave: “Apocalipse é uma reescrita
cristã de Ezequiel. Sua estrutura fundamental é a mesma. Sua interpretação
depende de Ezequiel. A primeira metade dos dois livros conduz à destruição
da Jerusalém terrena; na segunda metade eles descrevem uma Jerusalém santa
e nova. Há somente uma diferença significativa. O lamento de Ezequiel sobre
Tiro é transformado num lamento sobre Jerusalém, sendo a razão que S. João
deseja transferir para Jerusalém a nota de condenação irrevogável que se
encontra no lamento sobre Tiro. Aqui reside a diferença real nas mensagens
dos dois livros. Jerusalém, como Tiro, há de desaparecer para sempre”.4
Considere os paralelos mais óbvios:5
1. A Visão do Trono (Ap 4 / Ez 1)
2. O Livro (Ap 5 / Ez 2 – 3)
3. As Quatro Pragas (Ap 6.1-8 / Ez 5)
4. Os Mortos Debaixo do Altar (Ap 6.9-11 / Ez 6)
5. A Ira de Deus (Ap 6.12-17 / Ez 7)
6. O Selo na Fronte dos Santos (Ap 7 / Ez 9)
7. As Brasas do Altar (Ap 8 / Ez 10)
8. Sem Mais Nenhuma Demora (Ap 10.1-7 / Ez 12)
9. O Livro Sendo Comido (Ap 10.8-11 / Ez 2)
10. A Medição do Templo (Ap 11.1-2 / Ez 40 -43)
11. Jerusalém e Sodoma (Ap 11.8 / Ez 16)
12. O Cálice da Ira (Ap 14 / Ez 23)
13. A Vinha da Terra [Nação] (Ap 14.18-20 / Ez 15)
14. A Grande Prostituta (Ap 17 – 18 / Ez 16, 23)
15. O Lamento sobre a Cidade (Ap 18 / Ez 27)
16. O Banquete das Aves (Ap 19 / Ez 39)
17. A Primeira Ressurreição (Ap 20.4-6 / Ez 37)
18. A Batalha com Gogue e Magogue (Ap 20.7-9 / Ez 38 – 39)
19. A Nova Jerusalém (Ap 21 / Ez 40 – 48)
20. O Rio da Vida (Ap 22 / Ez 47)
Como assinala M. D. Goulder, a proximidade da estrutura dos dois
livros – a “identificação” passo-a-passo entre Apocalipse e Ezequiel – implica
algo mais que uma mera relação literária. “O nível de identificação geralmente
não é uma característica de empréstimo literário: por exemplo, a obra de
Crônicas está longe de ter um nível de identificação com Samuel e Reis, com
sua enorme expansão do material do Templo, e sua remoção das tradições do
norte. Antes, o nível de identificação é uma característica de uso lecionário,6
como quando a Igreja estabelece a leitura de Gênesis juntamente com
Romanos, ou Deuteronômio ao lado de Atos… Além disso, é claro que João
esperava que suas profecias fossem lidas durante o culto, pois disse: ‘Bemaventurado
aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia’ (1.3) – a
versão RVS traduz isso corretamente como ‘lê em voz alta’. Na realidade, o
próprio fato dele repetidamente chamar o seu livro de ‘a profecia’ o alinha
com as profecias do Antigo Testamento, que eram familiares por serem lidas
em público durante o culto”.7 Em outras palavras, o livro de Apocalipse foi
concebido desde o início como uma série de leituras no culto durante o Ano
da Igreja, para ser lido em conjunto com a profecia de Ezequiel (bem como
outras leituras do Antigo Testamento). Como escreveu Austin Farrer em seu
primeiro estudo sobre Apocalipse, João “certamente não pensava que o livro
seria lido apenas uma vez para as congregações e então usado para embrulhar
peixe, como uma carta pastoral”.8
A tese de Goulder sobre Apocalipse está apoiada pelas descobertas em
sua recente obra sobre os Evangelhos, The Evangelists' Calendar, que tem
revolucionado os estudos do Novo Testamento ao colocar os Evangelhos em
seu contexto litúrgico adequado.9 Como Goulder demonstra, os evangelhos
foram escritos originalmente, não como “livros”, mas como uma série de
leituras durante o culto, para acompanhar as leituras nas sinagogas (as igrejas
do Novo Testamento). De fato, argumenta ele, “Lucas desenvolveu seu
Evangelho ao pregar à sua congregação, como uma série de cumprimentos do
AT; e esse desenvolvimento em séries litúrgicas explica a estrutura do seu
Evangelho, que tem sido um enigma por muitos anos”. 10
As estruturas tanto de Ezequiel como de Apocalipse conduz tais livros
prontamente ao uso lecionário em série, como observa Goulder: “Na divisão
de Apocalipse e de Ezequiel em profecias ou visões, em unidades para os
domingos sucessivos, o intérprete dispõe de pouco arbítrio; uma característica
feliz, pois estamos buscando linhas divisórias claras e incontroversas. A
maioria dos comentários divide o Apocalipse em aproximadamente cinquenta
unidades, e eles não divergem muito. Na Bíblia, Ezequiel está dividido em
quarenta e oito capítulos, muitos dos quais são evidentemente profecias
isoladas que se sustentam por conta própria. Além disso, o comprimento dos
capítulos de Ezequiel é o mesmo em termos gerais. O livro cobre pouco mais
de 53 páginas de texto na versão RV, e muitos capítulos possuem cerca de
duas colunas (uma página) de comprimento. Algumas das divisões são, talvez,
questionáveis. Por exemplo, o chamado de Ezequiel se estende além do mui
breve capítulo 2 até o final claro em 3.15, e o curto capítulo 9 poderia ser
considerado juntamente com o capítulo 8; embora existam alguns capítulos
enormes (16, 23 e 40), que possuem mais de quatro colunas de comprimento,
e que se subdividem naturalmente. Mas uma característica encorajadora já se
tornará óbvia ao leitor: os dois livros se dividem em aproximadamente
cinquenta unidades, e o ano judaico (-cristão) consiste de cinquenta ou
cinquenta e um sabbaths/domingos. Portanto, temos o que parece material
para um ciclo anual de Ezequiel inspirando um ciclo anual de visões, que
então poderiam ser lidos nas igrejas da Ásia juntamente com Ezequiel, e
explicados em sermões à luz deles”. 11 Goulder continua e fornece uma longa
tabela mostrando leituras consecutivas ao longo de Ezequiel e Apocalipse,.
apresentada juntamente com o ano cristão da Páscoa à Páscoa; as correlações
são impressionantes.12
A ênfase pascoal do Apocalipse também foi abordada em um estudo
realizado por Massey Shepperd, quase vinte anos antes de Goulder escrever.13
Shepperd demonstrou outro aspecto notável da arquitetura de Apocalipse,
mostrando que a profecia de João está delineada de acordo com a estrutura do
culto da igreja primitiva – de fato, que tanto o seu Evangelho como o
Apocalipse “dão testemunho desde o ponto de vista da experiência da liturgia
pascal das igrejas da Ásia”.14
A natureza lecionária de Apocalipse ajuda a explicar a riqueza do
material litúrgico na profecia. Sem dúvida, Apocalipse não é um manual sobre
como “fazer” um culto de adoração; antes, ele é um culto de adoração, uma
liturgia conduzida no céu como um modelo para aqueles que estão na Terra
(e, incidentalmente, instruindo-nos que a sala do trono de Deus é o único
ponto de vista adequado para contemplar o conflito terreno entre a Semente
da Mulher e a semente da Serpente): “Tradicionalmente, e de maneira bastante
consciente, o culto da Igreja tem sido modelado segundo as realidades divinas
e eternas reveladas em Apocalipse. A oração da Igreja e da sua celebração
mística são uma com a oração e a celebração do reino dos céus. Assim, pois,
na Igreja, com os anjos e os santos, e através de Cristo o Verbo e o Cordeiro,
inspirados pelo Espírito Santo, os crentes fieis da assembleia dos salvos
oferecem adoração perpétua a Deus o Pai Todo-Poderoso”. 15
A falha em reconhecer a importância de Apocalipse para a adoração
cristã tem empobrecido grandemente muitas igrejas modernas. Para citar
apenas um exemplo: Quantos sermões foram pregados sobre Apocalipse 3.20
– “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta,
entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” – sem reconhecer a mui
óbvia referência sacramental? Sem dúvida Jesus está falando da Santa Ceia,
convidando-nos a cear com ele; por que não vimos isso antes? A razão tem
muito a ver com uma ideia puritana de culto que procede, não da Bíblia, mas
dos filósofos pagãos.
Dom Gregory Dix, em seu volumoso estudo do culto cristão, foi
certeiro: O puritanismo litúrgico não é “protestante”; nem sequer é cristão.
Em vez disso, é “uma teoria geral sobre o culto, não especificamente protestante, nem mesmo limitada a cristãos de alguma classe. É a teoria de
trabalho em que se baseia o culto muçulmano. Foi composta pelo poeta
romano Pérsio e o filósofo pagão Sêneca no século primeiro, e eles só
estavam elaborando uma tese dos autores filosóficos gregos que datam do
sétimo século antes de Cristo. Resumidamente, a teoria puritana afirma que o
culto é uma atividade puramente metal, que deve ser exercido por meio de uma
‘atenção’ estritamente psicológica a uma experiência subjetiva emocional ou
espiritual… Contra essa teoria puritana de culto ergue-se outra – o conceito
‘cerimonioso’ de culto, cujo princípio fundamental é que o culto como tal não
é um exercício puramente intelectual e afetivo, mas algo no qual o homem
inteiro – tanto o corpo como a alma, e seus poderes estéticos e volitivos,
assim como intelectuais – devem participar de forma plena. Ele considera o
culto como um ‘ato’ tanto como uma ‘experiência’”.16 É essa visão
“cerimoniosa” do culto que é ensinada pela Bíblia, de Gênesis a Apocalipse.
Visto que todas as ações de Apocalipse são vistas desde o ponto de vista de
um culto de adoração, este comentário assumirá que a estrutura litúrgica é
básica para sua interpretação correta.
Fonte: Chilton, David. The Days of Vengeance:
An Exposition of the Book of Revelation (Horn
Lake, MS: Dominion Press, 2006), págs. 20-25.
16 Dom Gregory Dix, The Shape of the Liturgy (New York: The Seabury Press, [1945] 1983), p. 312.
Nenhum comentário:
Postar um comentário